7º EP Minissérie: O que faço com a história que vivi – Entre fé, escolhas e responsabilidade

Episódio 7 – O custo invisível da sobrevivência

Nos episódios anteriores pincelamos alguns fragmentos sobre o modo de viver e pensar no piloto automático.

Catarina ainda não sabia, mas em 2018 seu corpo decidiu interromper esse funcionamento.

Ela acreditava que estava apenas “dando conta” e cumprindo seus papéis.

Hoje ela entende que estava correspondendo ao jogo da sobrevivência.

Catarina viveu sua infância, adolescência e parte da fase adulta dedicada a vida cristã, dedicada à igreja. Era catequista, trabalhava nos encontros de jovens, frequentava às missas dominicais. Esse período foi fundamental para interiorizar Deus em sua vida.

Ao entrar de vez na vida adulta e passar a conciliar, trabalho, casamento, maternidade, vida social e todos os demais papéis que essa fase apresenta, a espiritualidade que Catarina cultivava foi sendo, aos poucos, diluída na rotina do dia a dia. Houve um afastamento da vida cristã. As orações já não eram diárias e vibrantes, deixou de frequentar as missas, o cansaço e as preocupações, ocupavam muito espaço em sua mente, não cediam lugar ao aprimoramento do espirito.

Mas uma alma que conhece a Deus, não fica por muito tempo adormecida. Em seu interior, Catarina desejava um novo despertar espiritual. Ela sentia vontade e necessidade de retomar aquela intimidade com Deus.

Porém, entre sentir e agir havia uma lacuna, o movimento claro em direção a essa retomada precisava de um empurrão da vida.

Logo ela compreenderia isso.

Cada vez mais, Catarina firmava sua identidade na vida profissional. Ela compreendia o seu trabalho como algo de valor. Dizia que ocupar um cargo de liderança não era por acaso, sabia que suas decisões tinham impacto na vida não só da empresa, mas também na vida das pessoas que eram por ela lideradas e por isso procurava atuar com muito senso de responsabilidade.

No ano de 2018, Catarina ocupava o cargo de gerente e tinha sob sua gestão um grupo pequeno de seis pessoas. Foi quando recebeu uma proposta para gerenciar mais um departamento, onde veio a incorporar à sua gerência uma equipe que totalizava quase cinquenta funcionários.

Iniciava ali uma fase de novos desafios e cheia de muitas turbulências.

Na equipe que gerenciava, Catarina contava com uma supervisora muito competente, dedicada e de sua extrema confiança que já trabalhava com ela havia alguns anos. Seu nome era Margarida, carinhosamente, chamada de Mag  pela equipe.

Ao incorporar esse novo departamento à sua gestão, iniciou um processo de reestruturação e com isso, ela transferiu Mag,  para supervisionar o novo departamento.

Sem saber, Catarina acionava ali um gatilho que logo iria colapsar.

O modo sobrevivência que a sociedade nos impõe fez Catarina acreditar que ser forte era viver preparada para uma luta diária. E, sem perceber a vida lhe imputava uma batalha porque era assim que, inconscientemente, ela se posicionava.

Catarina e Mag se dividiam nos desafios que as novas atribuições lhes imputavam e Catarina não percebia que Mag estava adoecendo. Até que um dia Mag a chamou para conversar e entregou-lhe sua carta de demissão…. sem cumprimento de aviso prévio, sem ter cogitado antes alguma tratativa para preparar Catarina para esse momento.

De modo muito assertivo, Mag disse que precisava cuidar da sua saúde. Bastante emocionada, agradeceu por tudo, pela confiança depositada nela, pelos anos de convivência, disse que havia pensado bastante, mas sua saúde gritava por cuidados.

Catarina tentou argumentar, informando inclusive que já estava pleiteando sua promoção. Mag, porém, estava decidida. Despediu-se e saiu da sala, deixando Catarina sem palavras.

O colapso começa na sobrecarga normalizada.

No dia em que Mag saiu da empresa, algo em Catarina também saiu do lugar.

Naquela tarde ela saiu para almoçar, como em qualquer outro dia. A rotina ainda tentava se manter intacta. Mas o corpo já não obedecia com a mesma precisão.

Catarina não conseguiu comer.

Caminhou até um parque próximo à empresa. Sentou-se em um banco, de frente para um lago que permanecia sereno — indiferente ao caos que se instalava dentro dela.

Ali, não conseguiu mais sustentar a imagem de que estava “dando conta”.

Chorou.

Não era apenas pela saída de Mag.
Não era apenas pelo medo de não conseguir liderar sozinha.
Não era apenas pela sobrecarga.

Era o acúmulo.

O acúmulo de responsabilidades assumidas sem pausa.
O acúmulo de silêncios internos ignorados.

Enquanto a água do lago permanecia imóvel, seus pensamentos giravam sem descanso, pensava:

Eu poderia ter dito não a essa proposta.
Eu podia ter recusado.
Talvez eu tenha sido imprudente.
Talvez eu tenha fracassado.

O modo sobrevivência é assim: ele nos convence de que força é continuar, mesmo quando tudo dentro de nós pede interrupção.

Sentada naquele banco, Catarina percebeu algo desconcertante — ela não tinha medo apenas de não dar conta do trabalho. Ela tinha medo de não corresponder à imagem de mulher forte e corajosa que ela mesma havia construído.

Ali, naquele banco, não era a gerente.
Não era a líder.
Não era a profissional que sempre resolve.

Era apenas uma mulher exausta.

O lago continuava calmo.
Seu interior, não.

Foi naquele silêncio, entre um pensamento e outro, que algo começou a se revelar: seu corpo estava fazendo o que sua consciência ainda não tinha coragem de fazer — parar.

Aquele choro não era fraqueza, era ruptura.

Catarina sabia que naquele dia não conseguiria mais voltar ao trabalho. Ligou para uma funcionária, pediu que levasse sua bolsa até onde ela estava e de lá, seguiu para casa.

Chegando em casa seu marido Eraldo já estava lá e percebeu que ela não estava bem. O choro era compulsivo, o corpo tremia, a voz não saia. Eraldo a levou ao pronto socorro.  Foi quando teve sua primeira crise de ansiedade. Precisou de medicamentos fortes que a doparam. De volta em casa dormiu até o dia seguinte.

Os dias se seguiram agitados até que uma nova supervisora fosse contratada. Aos poucos as coisas foram tomando seus devidos lugares e a rotina se estabeleceu, deixando suas marcas no corpo e na alma de Catarina. 

Ela começava a perceber que estava vivendo sustentada por valores ligados ao desempenho e não por valores da consciência.

No próximo episódio veremos como o “despertar de uma nova consciência” chega na vida de Catarina.

Ele é um processo e não chega como um milagre.

Chega como uma decisão.

Seguinte – em breve