6º EP Minissérie: O que faço com a história que vivi

Episódio 6 – Um diagnóstico, um corpo em silêncio, uma mente falante e uma conversa edificante

Nesse episódio avançamos em um tempo da vida de Catarina, onde um diagnóstico a faz viver momentos de incertezas e medos. Mas, uma amizade traz a inspiração e apoio ajudando no fortalecimento da fé e esperança na vida.

“Estou bem. Não há necessidade de me preocupar com isso agora.”

“Minha saúde está perfeita. ”

 “Tenho tempo para começar a me cuidar. ”

Esse foi o pensamento que acompanhou Catarina durante três anos, desde o diagnóstico de seu pai.

Os médicos haviam dito que aquele tipo de tumor tinha maior probabilidade de se desenvolver após os sessenta anos. Ainda assim, orientaram que toda a família — especialmente os descendentes de primeira linhagem — realizasse exames preventivos.

Diferente dela, seu irmão seguiu as orientações médicas. Anualmente, realizava os exames. Em um deles, alguns pólipos foram retirados e encaminhados para biópsia. O resultado foi negativo.

A notícia trouxe alívio — e, de forma silenciosa, também um incômodo.

Pela primeira vez, Catarina considerou a possibilidade de olhar para a própria saúde com mais atenção.

Procurou um serviço médico. Durante a consulta, ouviu:

— A prevenção é a forma mais antecipada de cuidado.

Ela concordou e realizou o exame.

Três pólipos foram retirados e enviados para análise. O retorno foi agendado para quase cinquenta dias depois.

E a vida seguiu.

Entre trabalho, casa e maternidade, Catarina manteve sua rotina. No ambiente profissional, foi convidada a participar de um novo projeto: a implantação de um sistema de gerenciamento de vendas.

Foi nessa reunião que reencontrou Tereza.

Uma amizade antiga, dessas que o tempo apenas pausa, mas não apaga.

Agora, trabalhariam juntas.

Tereza atuava como gerente de relacionamento da empresa responsável pela implantação.

Catarina assumiu o treinamento da equipe: preparava conteúdos, conduzia reuniões, organizava as capacitações.

Os dias seguiam ocupados.

Até que chegou o dia da consulta para ver o resultado da biópsia.

O médico foi direto. Disse que aquele tipo de diagnóstico não era comum em pessoas tão jovens. Aos trinta e cinco anos, o quadro exigia atenção.

Mas havia um ponto importante: estava no início.

A indicação era cirúrgica. A retirada de parte do intestino seria o primeiro passo, seguida da avaliação sobre a necessidade — ou não — de tratamentos complementares.

Foi assim que Catarina recebeu a notícia de que um adenocarcinoma habitava silenciosamente seu intestino.

Naquele dia, o caminho de volta para casa pareceu mais longo.

Os pensamentos vieram em sequência, sem pausa.

Como poderia estar doente sem sentir nada?

Ela se sentia bem. Disposta. Saudável.

O corpo não anunciava o que o exame revelava.

E, ainda assim, ali estava.

A possibilidade de uma cirurgia.

A incerteza do que viria depois.

Receber um diagnóstico sem se sentir doente tem algo de desconcertante. Como se a realidade chegasse antes da experiência.

Em casa, ao compartilhar a notícia com o marido, encontrou acolhimento.

Palavras simples. Presença firme.

Era o que ele sabia oferecer — e, naquele momento, era o que ela precisava.

No dia seguinte, ligou para o irmão.

Ele veio.

E, diante dele, Catarina chorou pela primeira vez.

— Chore — disse ele. — Você tem o direito de se sentir fragilizada. Chore o quanto precisar. Mas depois levante a cabeça. Todos nós temos o direito de cair, mas também temos o compromisso de nos levantar. Vamos passar por isso juntos.

Algo, a partir dali, começou a se reorganizar dentro dela.

Havia uma fragilidade nova — não do corpo, mas da forma como passou a se perceber.

Ainda assim, seguiu normalmente sua rotina.

Entre compromissos, responsabilidades e prazos, manteve-se engajada no trabalho e na condução do projeto.

Mas havia um silêncio que crescia dentro dela.

E, com ele, a necessidade de falar.

Foi em Tereza que encontrou espaço.

Em um almoço, quase sem planejamento, compartilhou o que estava vivendo. Falou da sua inquietação pela espera da cirurgia e como se sentia naquele momento.

E ainda conduzida por pensamentos soltos, disse:

— Já ouvi dizer que emoções podem impactar o corpo… Não sei até que ponto isso faz sentido, mas essa ideia não sai da minha cabeça.

Tereza a ouviu com atenção.

Sem pressa de responder.

— Talvez isso não seja o mais importante agora — disse, com calma. — Você mesma mencionou a possibilidade de uma herança genética. Mas, independentemente da origem, existe algo que está nas suas mãos: como você escolhe viver e interpretar esse momento.

Fez uma pausa.

— Não vou te dizer para não se preocupar. Mas posso te convidar a sustentar algo junto com isso: esperança… e fé.

Catarina respirou fundo.

— Eu me sinto bem, fisicamente. Não sinto nada no corpo. Mas, desde que soube… é como se algo tivesse mudado. Como se eu tivesse ficado mais frágil. Como se estivesse me preparando para algo que nem sei se vai acontecer.

Tereza sorriu, de leve.

— Às vezes, a dificuldade não está apenas no que acontece… mas na forma como passamos a olhar para o que acontece.

Catarina a olhou em silêncio.

— Você não está vivendo a doença agora — continuou Tereza. — Está vivendo o que imagina sobre ela.

As palavras ficaram.

Sem explicação. Sem conclusão.

Apenas ficaram.

E então, como quem organiza um pensamento que vinha sendo gestado, Tereza disse:

— Talvez você possa experimentar olhar para isso de outro lugar.

Não como algo que veio interromper sua vida.

Mas como um tempo que se abre.

Tempo de desacelerar.

Tempo de refletir.

Tempo de fortalecer a fé.

Tempo de confiar no processo da vida — mesmo sem garantias.

Tempo de se aproximar de quem caminha com você.

Tempo de aprender a receber.

Tempo de agradecer.

Tempo de ser.

Catarina ouviu.

Havia beleza naquelas palavras.

Mas ainda havia distância.

— Eu entendo o que você está dizendo… mas ainda não sei viver isso.

Tereza não insistiu.

Algumas compreensões não chegam pela explicação.

Elas chegam pelo tempo.

As duas riram, encerraram o almoço e voltaram ao trabalho.

Mas algo já não era exatamente o mesmo.

Os dias passaram.

Até que o hospital entrou em contato.

Era o momento dos exames pré-operatórios.

A cirurgia havia sido marcada — e Catarina deveria se apresentar ainda naquele dia.

A notícia chegou como interrupção.

No meio do projeto.

No meio das responsabilidades.

No meio da vida.

— E agora? — pensou. — Como vai ser?

A filha tinha apenas seis anos.

O trabalho exigia presença.

As entregas estavam em andamento.

Mas, naquele instante, algo se impôs com clareza: há momentos em que a vida redefine as prioridades, independentemente da nossa organização.

Catarina foi internada.

A cirurgia aconteceu.

E foi bem-sucedida.

O médico informou que não haveria necessidade de tratamentos complementares. Seria necessário apenas o repouso — cerca de sessenta dias — e o acompanhamento periódico.

Com o tempo, Catarina compreenderia algo que, naquele momento, ainda não podia ser elaborado por completo:

a consciência não chega quando queremos, mas quando para ela estamos prontas para sustentar o que ela tem a revelar.

No próximo episódio, avançamos para o ano de 2018 — quando o despertar de uma nova consciência começa a se formar em meio ao caos.

Nota: Adenocarcinoma é um tipo de tumor maligno que se origina na mucosa do intestino grosso, frequentemente a partir de pólipos (lesões inicialmente benignas) que se desenvolvem ao longo do tempo.

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