2º EP Minissérie: O que faço com a hisória que vivi

Episódio 2 – O dia da decisão: saindo de cima do muro

A fase do caos havia passado. Então outro mundo se abriu: iniciava uma fase de novas descobertas. Catarina estava no último ano da faculdade de Marketing e trabalhava em uma empresa, no ramo corporativo, na área de eventos.  

Entre os vinte e quatro e os vinte e nove anos, concluiu a graduação e seguia trabalhando. Nessa fase viveu momentos, que não tinham sido vividos na adolescência, só que agora com mais maturidade. Foi assim que passou a fazer escolhas mais conscientes como selecionar os ambientes que frequentava, os vínculos que construía e, principalmente, aprendeu a dizer “não” com mais facilidade.

Aos vinte e nove anos, encontrou um dos maiores presentes que a vida lhe deu: seu atual marido. Entrou nesse relacionamento como se tivesse encontrado sua alma gêmea. Foi mágico e profundo – dizia ela. Casaram-se, e, alguns meses depois, chegou outro presente divino: a filha do casal.

Ah, que outro momento mágico, dizia Catarina.

Ela sentia-se plenamente realizada nos âmbitos pessoal e profissional. Catarina ainda se relacionava com a vida como quem entra em uma disputa. E, nesse modo de sobrevivência, passou mais de quinze anos mergulhada na matrix: era mulher, esposa, mãe, filha, irmã, amiga, profissional — sempre atuando nesses diversos papéis, muitas vezes de forma automática, sem muita reflexão, apenas vivenciando o que os dias iam lhe proporcionando.

Em meio àquela vida agitada, entre trabalho e família, ela foi desafiada a pensar sobre o futuro, aquele, pós aposentadoria, sabe!? Quando ainda pensávamos sobre isso.

Mas quem a desafiou? Ela mesma — ou melhor, a vida, quando a colocou diante de situações que a fizeram sair de cima do muro.

Quando se casou, ela já sabia quais eram os sonhos do seu marido. Um de seus objetivos era retornar à sua terra natal.

Ao longo dos primeiros anos daquela união, Catarina não dava muita atenção a essa informação. Vivia focada no trabalho e, quando conversavam sobre planos para o futuro, ela dava um jeito de desconversar e não se posicionava.

Esse desafio se revelou quando seu marido começou a se movimentar em direção ao futuro que sonhava e, ao se ver paralisada, ela se fez a seguinte pergunta: – qual seria a minha contraproposta para um projeto de vida com a minha família?

A proposta dele para ela era muito boa. Havia clareza. Ele desejava estar mais perto da família, principalmente dos pais, viver junto à natureza e ter mais qualidade de vida. Sabia que precisava de estrutura financeira e de uma base sólida, e por isso trabalhava. Mas, sobretudo, sabia que não queria apenas “curtir a velhice”, e sim viver com mais qualidade justamente nos anos em que ainda teria produtividade.  Tinha planos para se manter produtivo e ainda gerar recursos para família deles, mesmo vivendo em outro estado.

E Catarina? Seus planos eram sobreviver. Sua capacidade de sonhar estava adormecida. As conquistas que ela tinha feito até ali eram suficientes para ela.

Depois de muito refletir, percebeu que não tinha uma contraproposta capaz de sustentar a “oferta” do seu marido. Ali, pela primeira vez, se deu conta de que não se tratava de apenas tomar uma decisão, mas de começar a pensar sobre um projeto de vida.

Até que um dia, finalmente, saiu de cima do muro e informou ao seu marido: ok, vamos nos planejar – rumo à mudança para o Nordeste.

Aceitar aquele projeto não foi um gesto impulsivo. Foi um primeiro ato de coragem — ainda tímido — sustentado mais pela confiança do que pela certeza.

No próximo episódio, um pouco de caos interior, mas que se ilumina quando o medo vai se transformando em fé e coragem.