02 de fev 2026
O que tem valor eterno é o que me sustenta
“Estar no mundo e não ser do mundo”.
Quem já ouviu essa frase?
“O problema do nosso tempo não é a mulher estar no mundo. O problema é ela existir apenas para o mundo. Quando a mulher perde o eixo interior, tudo nela passa a ser resposta ao externo: expectativas, validação, demandas, ideologias, ruído constante. Ela age muito, fala muito, se expõe muito, mas pensa pouco, silencia pouco, discerne pouco. E sem esse espaço interno, não há critério, não há direção, não há identidade firme.” (May Duchini, 2025)
O ponto central aqui é justamente esse: o eixo interior.
Um eixo formado por valores eternos — aqueles que me sustentam no meio do caos e das incertezas. São valores que estão acima dos meus sentimentos e das minhas vontades.
O que tem valor eterno é aquilo que decido, deliberadamente, guardar em meu interior.
É quando escolho:
- Olhar para minha família como meu lugar seguro;
- Olhar para os meus pais com empatia e aceitação;
- Servir, sem me escravizar;
- Atravessar a dor, compreendendo que é no fogo que se forja o ouro e que é na cruz que se constrói uma identidade firme.
O que me sustenta é a fé — mas não uma fé desconectada da realidade, nem uma espiritualidade desvinculada da razão. É uma fé concreta, que nasce da certeza de que sou amparada e cuidada por uma força maior, que não está fora de mim apenas, mas também habita em mim.
O que me sustenta é a virtude da fortaleza e da coragem.
É o silêncio e a solitude: espaços de formação, onde minha alma se organiza e aprende a se posicionar melhor no mundo.
É a compreensão do que vale — e do que não vale — gastar a minha energia.
No fim, o que tem valor eterno é aquilo que se interioriza no coração e na mente da mulher, permitindo que ela esteja no mundo sem se perder nele.
Porque só o que é eterno sustenta quando tudo o mais dispersa.
O pior de mim
Existem situações (e pessoas) que despertam em nós os piores sentimentos, que preferiríamos nunca ver. Elas fazem surgir aquele lado oculto, infantil, explosivo, que todos carregamos em algum lugar da alma.
Há momentos em que a raiva aparece do fundo do peito e desperta uma fúria adormecida, o corpo reage antes da consciência, a mão pesa na mesa, as palavras entortam, os passos ficam inquietos.
É como se uma parte nossa, ainda imatura, assumisse o controle. E, mesmo sabendo que não é o nosso melhor, por instantes perdemos o tal do equilíbrio emocional que tanto buscamos e tentamos manter. Depois que passa, a teoria volta ao seu lugar. A razão chega quase de mãos dadas com a vergonha e sussurra: “Que coisa feia, hein? ”
A raiva cede para a culpa.
A atitude infantil dá lugar ao constrangimento.
A explosão dá lugar a angustia.
E, por fim, sobra aquele vazio silencioso.
Hoje foi uma manhã de caos.
No dia a dia, vamos guardando dentro da mente pequenas frustrações reais e também outras imaginárias — e ambas pesam. Muitas vezes, o gatilho para a explosão nasce de algo mínimo: uma palavra torta, um olhar, um gesto impensado. E então tudo se mistura, tudo transborda, e o corpo fala por nós.
De repente, o caos se instala.
Essa dança entre o que é real e o que é imaginado nos confunde. Se não vigiarmos, criamos um mundo interno onde ninguém entra e de onde nada sai. Ficamos presos em pensamentos que ganham vida própria.
Por isso Jesus nos alerta: “Vigiai e orai para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca.” (Mateus, 26:41). A vigília consiste em observar o que se passa em nossa mente e a oração diz respeito a entender que não estamos sozinhos. Quando oramos, nos conectamos com nossa consciência, com nossa alma e retornamos à nossa natureza.
O aprendizado de hoje é simples, mas profundo: vigiar mais, orar mais, e permanecer conectada à minha verdade.
Porque é dessa presença interior que nasce a sabedoria para enfrentar, com mais gentileza, os próximos dias de caos — que certamente virão, mas não precisam me dominar.
25 de fev 2026
SOLITUDE: quando o corpo e a mente pedem cuidado
O que você vai ler agora não é apenas sobre a arte de ficar sozinha, sobre silencio ou cansaço, mas sobre assumir a responsabilidade pelo autocuidado e aprender a se preservar para não se perder de si mesma.
Vamos lá?
Após dar um banho em minha mãe, a deixei debaixo do pé de caju. Ela me pediu para sentar ao seu lado, mas dessa vez eu disse não, pois preciso ficar sozinha.
Eu só quero meu silencio, ficar com meus pensamentos, saber que não serei incomodada, preciso organizar minha mente, preciso de solitude.
Tenho uma hora e meia.
Escrever me acalma e ficar sozinha também.
Nos últimos dias me doei mais do que podia, fiz a vontade das pessoas que estiveram ao meu redor, tive minha energia sugada por alguém, me deixei escapar.
Me sinto como o título do livro do Padre Fabio de Melo, “quem me roubou de mim”: algumas pessoas me sequestraram, porém não pediram resgate para me devolver, apenas me levaram e deixaram desordem em meu lugar.
Naquela noite tive dificuldades para pegar no sono. Fiquei agitada, fiz uma oração, exercícios de respiração e visualizações de luz. Me acalmei, porém, o sono não chegava.
Após algum tempo tentando, acabei dormindo. Acordei de madrugada, com o corpo muito dolorido, mas não era dor muscular, era uma dor estranha que iniciava no pescoço, descia pelas costas, quadril, passando pelos braços, pernas e pés, enfim, meu corpo todo doía e meu estômago também.
Me lembrei da visita que havíamos recebido na noite anterior. E, imediatamente, retornei àquela conversa que me roubou de mim.
Mas o que foi roubado? Minha energia.
Por algumas horas me senti fraca, o corpo reagiu. Já havia me sentido assim antes, anos atrás, me lembro perfeitamente do olhar daquele homem quando realizei um atendimento de um paciente que causava transtornos na recepção do ambulatório em que eu trabalhava.
Quando ele pediu para falar com a gerência, alguém me chamou, fui até ele e me apresentei. Imediatamente fui atravessada pelo seu olhar. Ele me olhava com o canto do olho, não diretamente, era um olhar fixo, intimidador. Resolvi a necessidade que ele apresentava e logo foi dispensado. Chegou o horário de almoço e saí para almoçar, porém, não consegui comer naquele dia: uma fraqueza e indisposição me assolaram de tal forma que a imagem daquele homem e principalmente aquele olhar, não saiam da minha cabeça.
Quando falo de energia, falo de algo que se manifesta de forma subjetiva.
Em seu livro, Padre Fábio de Melo explica sobre essa subjetividade como sendo o estabelecimento de vínculos que minam a nossa capacidade de sermos quem somos. Aqui, estou chamando essa subjetividade de “energia”, pois é algo que sinto o impacto diretamente no corpo e na mente.
Essa reflexão me leva a compreender que não foi aquela visita ou aquele homem que me roubaram de mim e me adoeceram, mas o quanto eu ainda não sabia proteger meus limites.
Falar de energia, para mim, é reconhecer que corpo, mente e espírito reagem quando ultrapassamos nossos próprios limites ou permitimos que os outros ultrapassem. Pessoas sensíveis, sobretudo do ponto de vista espiritual, precisam aprender que cuidar de si não é egoísmo, mas um ato de maturidade. A solitude que busco hoje é um gesto de retorno. Retorno a mim, à escuta do corpo, à reorganização interior. Aprendi que, para continuar presente na vida dos outros, preciso primeiro estar inteira em mim mesma não para me afastar do mundo, mas me devolver a ele de forma mais consciente, mais saudável e mais verdadeira.
